Notas de Imprensa

Vida de Rómulo

Data: 11-11-2006; Páginas: 63
Fonte: SOL
C/ Foto | PB

Heliosfera

Vida de Rómulo

RÓMULO de Carvalho (1906- 1997), o professor de Ciências Físico-Químicas também conhecido pelo heterónimo de António Gedeão, é uma figura inigualável da cultura portuguesa.

Além de professor de ciências e de poeta, juntando duas sensibilidades que para muitos são antípodas, foi um notável historiador da ciência e um brilhante teórico da pedagogia.

COMEMORAM-SE, este ano, o centenário do nascimento de Rómulo e os 50 anos da estreia de Gedeão. Com efeito, a sua primeira edição poética (Movimento Perpétuo, que inclui o poema 'Pedra Filosofal') saiu em 1956, quando Rómulo vivia em Coimbra. O verso que tanto demorou a sair foi: «Inútil definir este animal aflito». João Gaspar Simões não hesitou em incluir, numa antologia de 'jovens poetas' saída um ano depois, esse 'jovem' autor...

RÓMULO em prosa e Gedeão em poesia escreviam num português de lei, um português clássico. Clássico é também o nome de Rómulo, o fundador da cidade de Roma que Plutarco biografou. Curiosamente, assim como Rómulo matou o seu irmão gémeo Remo, também Rómulo de Carvalho decidiu a certa altura 'matar Gedeão, só assim se explicando a publicação de Poemas Póstumos (onde está o verso «Que a terra me seja leve») e de Novos Poemas Póstumos (com os versos «E é tudo/ Não há nada a acrescentar»), em 1983 e 1990. Clássica era também a figura de Rómulo, um mestre sábio e exigente. Como bem mostra Nuno Crato numa recente antologia de textos pedagógicos de Rómulo (edição da Gradiva), este não falava 'eduquês'.

A um aluno que disse ter «estudado um bocado», retorquiu com fino humor: «Bocado é o que se apanha com a boca, mas já que o dizes vamos lá a ver o que engoliste».

A Vida de Rómulo é um exemplo para todos. E a sua obra é tão exemplar como a sua vida. Para mim, que fui seu aluno à distância através dos livros, é uma honra dirigir a revista Gazeta de Física, por ele fundada há 60 anos!