Notas de Imprensa

Ciência e poesia comandaram vida e obra

Data: 29-07-2006 ; Páginas 20 a 23
Fonte: Jornal da Madeira / Olhar
Autor: Paula Abreu/Agência Lusa
C/ Foto | Cor

Rómulo de Carvalho/António Gedeão

Ciência e poesia comandaram vida e obra

O centenário do nascimento de Rómulo de Carvalho, ou António Gedeão, será comemorado a 24 de Novembro deste ano. Está a ser preparado um vasto programo comemorativo da efeméride. - Frederico Gama Carvalho, filho do cientista poeta, referiu à Lusa que o pai se dedicou com o mesmo entusiasmo e empenho à ciência e à poesia, mas foi com "frases poéticas simples e acessíveis" que ele se tornou mais conhecido no país. A frase "o sonho comanda a vida", por exemplo, "tocou profundamente as pessoas".
Paula Abreu/Agência Lusa

A ciência e a poesia tiveram a mesma importância na vida de Rómulo de Carvalho, mas foi com frases poéticas como "o sonho comanda a vida", criadas sob o pseudónimo de António Gedeão, que se tornou mais conhecido.

Em declarações à Agência Lusa, familiares do autor garantiram que as duas áreas, aparentemente tão opostas, tiveram um peso equivalente na vida do autor, cujo centenário do nascimento será comemorado a 24 de Novembro deste ano, estando a ser preparado um vasto programa comemorativo.

Frederico Gama Carvalho referiu à Lusa que o pai se dedicou com o mesmo entusiasmo e empenho à ciência e à poesia, mas foi com frases poéticas simples e acessíveis" que ele se tornou mais conhecido no país. "O trabalho na área da investigação científica e docência - disse - foram muito relevantes. Ele foi o primeiro, por exemplo, a escrever uma História do Ensino em Portugal, mas talvez o grande público desconheça estes aspectos da sua vida".

Depois de alguns compositores terem musicado alguns dos seus poemas, nomeadamente "Pedra Filosofal", a poesia de António Gedeão "começou a ser cantada por toda a gente", como Manuel Freire (na foto principal), o primeiro a cantar o poema.

"O sonho comanda a vida" tocou profundamente as pessoas

"O sonho comanda a vida é uma frase tão simples, mas tão bonita. Tocou profundamente as pessoas", comentou, procurando explicar o sucesso da canção. Frederico Gama Carvalho considera que, por isso mesmo, a obra poética do autor "está ampla e suficientemente divulgada, o que já não acontece com o seu restante trabalho noutras áreas".

Na sua opinião, as entidades públicas deveriam investir mais na reedição de títulos já esgotados e na edição de inéditos de Rómulo de Carvalho, "o que deverá acontecer em 2007 com o impulso dado pelas iniciativas previstas nas comemorações do centenário".

A Fundação Calouste Gulbenkian vai editar as "Memórias" do autor, uma obra que toda a sua vida profissional e pessoal, e serão também reunidos poemas e traduzidos para inglês, italiano, espanhol e francês.

A memória de Natália Nunes da Gama Carvalho, viúva do investigador, retém momentos, na vida deste, que foram, não apenas de dedicação ao trabalho, mas também de lazer e de uma "curiosidade constante em saber como funcionavam as coisas, como se faziam".

"Ele era capaz de tirar fotografias e notas sobre todo o processo de criar e colocar uma estátua num espaço público", recordou. Sobre a ligação entre a ciência e a poesia, "era constante, e isso nota-se no vocabulário científico e metáforas que colocou nos seus poemas", indicou.

Era uma "pessoa de trato fácil, mas muito rigoroso, embora sem dureza", descreveu o filho, lembrando ainda a exigência, "contrária ao habitual dos portugueses, em ser pontual, e também em falar e escrever correctamente, sem erros".

Publicação de "Memórias" com 1.100 páginas

Quanto ao programa comemorativo, a publicação das "Memórias" inéditas do cientista e poeta Rómulo de Carvalho, é o ponto mais significativo das comemorações.

O vasto programa de eventos foi apresentado na- última quinta-feira, em Lisboa, no Café Martinho da Arcada, pela comissão organizadora das comemorações, constituída por amigos, antigos alunos e familiares de Rómulo de Carvalho, falecido em 1997 e autor de uma vasta obra nas áreas da investigação histórica, ciência, ensino e poesia.

Frederico Gama Carvalho, membro da comissão organizadora das comemorações, explicou que as mais de duas dezenas de iniciativas previstas visam "contribuir para recordar e fazer viver na sociedade portuguesa a herança intelectual" do cientista e professor "e do seu inseparável amigo António Gedeão".

Quanto à publicação de "Memórias", tratar-se-á de "um manuscrito de cerca de 1.100 páginas que "constitui um notável repositório da experiência de vida pessoal e profissional ao longo de quase um século", assinalou Frederico Gama Carvalho.

A obra "inclui estudos importantes sobre a ciência em Portugal, relatos sobre as dificuldades a que fez face na realização das investigações ao longo da vida e também aspectos interessantes da sociedade portuguesa da época, ao longo do século XX".

O programa das comemarações inclui uma exposição a inaugurar na Biblioteca Nacional a 12 de Outubro, sobre a vida e a obra do historiador, que desde muito cedo revelou interesse pela investigação e divulgação da ciência exercendo como professor durante 40 anos, ao mesmo tempo se dedicava à poesia.

Foi, aliás, nesta área literária que o seu nome se tornou mais conhecido, depois de alguns dos seus poemas terem sido musicados por compositores como Manuel Freire ou José Niza, popularizando textos como "Pedra Filosofal", "Aurora Boreal", "Fala de um Homem Nascido" e "Lagrima de Preta".

Nascido em Lisboa, Rómulo de Carvalho licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela Universidade do Porto, depois de ter frequentado o Curso Preparatório de Engenharia Militar na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Centrou posteriormente a sua investigação na ciência em Portugal no século XVIII, sobretudo nas áreas da Física Experimental, da Astronomia e da História Natural.

Artur Marques da Costa e João Gaspar Caraça, também membros da comissão organizadora das comemorações e antigos alunos e amigos do homenageado, recordaram aos jornalistas o impacto da personalidade de Rómulo de Carvalho e o seu talento como pedagogo.

A influência do poeta cientista junto dos jovens

Através de diversas obras de cariz pedagógico, nomeadamente "História do Telefone", "História da Fotografia", "História dos Balões", "História da Radioactividade", entre outras, entusiasmou muitos jovens a seguirem estudos e carreiras na área das ciências. O enorme espólio do homenageado foi doado pela família à Biblioteca Nacional, tendo sido entregue, gradualmente, desde 2003. A viúva de Rómulo de Carvalho, Natália Nunes Gama de Carvalho, também presente na apresentação das iniciativas, comentou que só recentemente teve uma visão mais detalhada do vasto legado deixado pelo investigador e poeta.

"Eu que vivia com ele não consigo compreender muito bem como conseguiu tempo para escrever tanto", comentou, sobre as centenas de resmas de cadernos preenchidas ao longo de quase cem anos.

No programa das comemorações está ainda prevista a realização de uma exposição evocativa no Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, para inaugurar a 24 de Novembro.

A instituição do Prémio Rómulo de Carvalho pela Universidade de Évora, que irá galardoar anualmente investigadores nas áreas da didáctica e pedagógica do ensino das ciências, alternando com as vertentes da História e da Filosofia da Ciência, é outra iniciativa prevista.

Sob os auspícios do Ministério da Educação, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, será incluído um conjunto de obras publicadas de Rómulo de Carvalho de especial interesse didáctico e valor formativo, a revista da Fundação Calouste Gulbenkian irá dedicar uma edição integral da revista "Colóquio Letras" ao autor e o Instituto Superior da Maia realizará entre 23 e 24 de Novembro um Colóquio Internacional no âmbito do centenário.

No colóquio, da responsabilidade do Centro de Estudos de Língua, Comunicação, e Cultura, serão apresentados três painéis temáticos sobre Ciência e Cultura Científica, Ciência e Novo Humanismo, e Literatura e Ciência.

Ainda no âmbito da edição, serão publicados em 2007 quatro volumes com uma selecção de 25 poemas de António Gedeão traduzidos em inglês, francês, italiano e espanhol, iniciativa que terá o apoio do Instituto Camões.

Numa sessão solene na Academia das Ciências de Lisboa, a 24 de Novembro, estarão presentes diversos académicos ligados às universidades do Porto, Coimbra, Lisboa e Évora para homenagear oficialmente Rómulo de Carvalho.

Entre outras entidades já citadas, o programa de comemorações tem ainda o apoio do Ministério da Cultura, do Ministério da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
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